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"A sensibilização e mobilização dos cidadãos para o carpooling pode e deve ser feita, quer pelas empresas quer pelas autoridades públicas." (Entrevista do Prof. José Manuel Viegas)

Entrevista José Manuel VIegas sobre carpoolingA atual crise sanitária devido a epidemia de Covid-19 mudou bastante o nosso quotidiano e também como nos deslocamos. Ao ler o artigo de José Manuel Viegas sobre "Mobilidade Urbana em período de distanciamento social" e a sua opinião sobre o carpooling no jornal Público, entrámos em contato com ele para obter mais informações sobre a sua (larga) experiência e as suas opiniões sobre o desenvolvimento da partilha de carro em particular...

Caro Professor José Viegas, obrigado por ter aceite o nosso convite. Para quem não o conhece, pode explicar o seu percurso profissional e a sua experiência em relação ao tema da mobilidade?

"O meu percurso profissional teve desde o seu início uma componente académica e uma de consultoria, tendo assumido logo após a minha pós-graduação na Alemanha um claro enfoque nos sistemas de transportes. Na vertente académica fiz a minha carreira no Técnico, onde fui Professor Catedrático de Transportes entre 1992 e 2012 e criei e dirigi, primeiro o Mestrado em Transportes (1987) e mais tarde o doutoramento em Transportes 82003).

Na vertente de consultoria, e depois de algumas etapas iniciais de pequena escala, fui um dos sócios fundadores da TIS em 1992, empresa que rapidamente se afirmou como a principal consultoria nacional neste setor, e conseguiu também ter uma posição relevante nos programas de I&D da Comissão Europeia.

Em 2012 concorri e fui eleito Secretário-Geral do Fórum Internacional dos Transportes (FIT), um organismo intergovernamental que faz parte do sistema OCDE e que tinha na ocasião 54 países membros. Aí tive oportunidade de revitalizar o programa de investigação e criar um conselho de parceria com algumas das mais inovadoras empresas mundiais. Desde o meu regresso a Portugal em 2017 tenho estado ativo como consultor independente, mantendo ainda a minha ligação à TIS como administrador não executivo."

Nestes tempos de Covid-19, tem recentemente apontado o carpooling como uma das formas de mobilidade a privilegiar e promover. Pode lembrar aqui porquê e as vantagens que vê na partilha de carro nesta altura particular?

"De uma forma geral vejo as soluções de mobilidade partilhada em veículos ligeiros como portadoras de bons níveis de eficiência quer na utilização do espaço público quer na utilização do tempo dos cidadãos que se querem deslocar. Pode tratar-se de soluções colaborativas, como o carpooling, ou se soluções profissionais, de serviços a pedido em tempo real e com formação de pequenos grupos de passageiros.

As grandes aglomerações não dispensam a componente de transporte coletivo pesado, indispensável para servir os grandes fluxos, mas a mobilidade partilhada pode responder sem dificuldade e com grandes ganhos de eficiência – como demostrado nos estudos que fizemos no FIT – a todos os outros segmentos de procura de mobilidade." 

Em relação às deslocações "casa - trabalho" e considerando o contexto no nosso país (distâncias, sustentabilidade, ...), que impacto e atitude devem ter as empresas junto dos seus colaboradores em relação ao carpooling?

"O carpooling pode ter um papel significativo para atender à procura de deslocações pendulares com distâncias superiores a 4 ou 5 km, o que representa cerca de metade das deslocações motorizadas com esse motivo nas nossas principais cidades. A sensibilização e mobilização dos cidadãos para esta opção pode e deve ser feita, quer pelas empresas quer pelas autoridades públicas. Em qualquer dos casos há medidas concretas de estímulo que podiam ser ativadas."

Os nossos dados mostram que a maior parte dos membros da nossa plataforma não são estudantes, contrariamente a ideia que muitos ainda têm em relação a partilha de carro. No seguimento da pergunta anterior, acha que as universidades também podem / devem ter um papel mais importante na promoção da partilha de carro? Se sim, como?

"Claro que sim, as Universidades situam-se neste caso com um papel semelhante aos das empresas, no sentido em que representam o local de destino diário dos seus estudantes, docentes e trabalhadores administrativos, com estadias diárias de várias horas. Têm ainda a vantagem de que os argumentos em suporte das opções de mobilidade partilhada poderão ser um pouco mais sofisticados."

Que tipo de apoio público precisa o carpooling para se desenvolver mais em Portugal na sua opinião?

"Uma análise cuidadosa, como a feita no FIT, mostra que em muitos casos os níveis de benefício público – em termos de emissões de GEE e poluentes, e de consumo de espaço público – correspondentes às soluções de mobilidade partilhada não são inferiores aos obtidos com o transporte público. Nesses casos seria justificada a outorga de benefícios aos viajantes em mobilidade partilhada, por exemplo e como mínimo, ao nível da possibilidade de autorizar as empresas a considerar como custo fiscal as despesas em suporte ao carpooling dos seus trabalhadores, à semelhança do que existe para o passe dos transportes coletivos.

Seria também concebível algum regime bonificado para o estacionamento dos veículos que tivessem feito uma parte importante da viagem em regime partilhado (o que exigiria o desenvolvimento de algum instrumento de verificação, mas isso não parece demasiado difícil)."

Acha que o carpooling pode ser considerado um concorrente aos transportes públicos?

"Sê-lo-á certamente nos casos em que o serviço prestado pelos transportes coletivos é de qualidade insatisfatória para os cidadãos. Mas essa formulação é incorreta, sobretudo num contexto em que nas nossas duas maiores Áreas metropolitanas o transporte coletivo atende apenas 16% das viagens, o que nos diz que quase só o usam quem não tem acesso a um carro.

Por isso a pergunta correta deve ser: para quem não tem uma oferta de qualidade no transporte coletivo, pode o carpooling limitar o número de automóveis privados usados nas suas deslocações?"

Na sua opinião, que país podia ser apontado como o mais avançado em relação ao desenvolvimento do carpooling? O que fizeram lá para chegar a tal nível?

"Há vários países e regiões com níveis interessantes de uso do carpooling, ainda que com matizes um pouco diferentes. Acho que em todos os casos se está muito abaixo do nível possível e desejável, pelo que não vou referir nenhum." 

Que futuro prevê para o carpooling / a partilha de carro, em particular em Portugal?

"Não sou capaz de fazer previsões para a sua cota de mercado, mas espero que se possa ir desenvolvendo na medida em que surjam no mercado propostas de valor que se ajustem aos requisitos dos cidadãos nos vários segmentos, e espero contribuir para a geração de algumas dessas propostas."

 

 

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